Homenagem a Luis Octávio (14/03/1935 ~ 13/04/2017)

Tempo de leitura: 22 minutos

Por Eduardo (‘Dado’)

Conheci o sr. Luís Octávio de Oliveira no dia 18 de abril de 2009, mês do ferroviário, e em local apropriado: na estação Barão de Mauá. Este encontro se deveu ao antigo Orkut, pois marquei com um amigo dessa rede social para nos conhecermos pessoalmente na estação. Durante o nosso bate-papo, notei um senhor que percorria as plataformas da estação, anotando em um papel tudo que via: locomotivas, peças, vagões, carros de passageiros, estado das plataformas, tudo detalhadamente anotado em um papel qualquer, sem qualquer requinte. Era o Luís Octávio. Ele veio até nós, nos cumprimentou e se apresentou, e aproveitando a sua disponibilidade, pedi que tirasse uma foto minha com o meu amigo. Mal sabia eu que estava perdendo a oportunidade de registrar o que seria o início de uma grande amizade, não só maior devido à correria do dia a dia e à minha rotina movimentada. Após a fotografia, o agradeci e vi o resultado da imagem, que ficou meio torta e fora de enquadramento. Perguntei ao meu amigo o que Luís Octávio fazia na estação, e ele disse que sempre estava lá, verificando se faltava alguma coisa ou se algo havia sido removido do lugar. Comentei que ele parecia meio doido de fazer isso, mas não demorou muito tempo para eu entender e perceber, com muito orgulho, que todos somos doidos, mas no sentido figurado, no melhor dos sentidos. São devaneios que poucos entendem, mas que fazem muito sentido na vida de cada um, na missão que cada um tem nessa vida.

Algum tempo depois nos encontramos novamente em Barão de Mauá, e durante a conversa eu soube que ele morava no mesmo bairro que eu. Na época eu passeava com cães para complementar a renda, e frequentemente o encontrava durante estes passeios. Certa vez o vi à noite, caminhando com certa dificuldade na calçada, e me assustei. Me aproximei e falei com ele, que surpreso, disse que estava tudo bem. Estava apenas apertado para ir ao banheiro, segundo ele. Aliás, o bom humor era, entre muitas outras qualidades, a sua marca registrada. Marcamos alguns encontros com amigos de comunidades do Orkut, normalmente em um bar no bairro da Lapa, e ele estava sempre presente.

Um dos encontros em um bar da Lapa. Luís Octávio é o que está de camisa cinza e óculos

Luís Octávio costumava tocar piano em um supermercado do bairro. O vi no local muitas vezes, sendo que às vezes eu apenas apreciava, algumas vezes eu ía falar com ele, em outras eu não queria atrapalhar. Teve ocasiões em que o filmei durante o show que ele dava ao teclado, me lembro que em uma dessas ocasiões era véspera de Natal. Fiquei pensativo, me perguntando se ele não tinha família, mas era uma opção dele, ele costumava ficar sozinho no seu pequeno apartamento, planejando, pesquisando, escrevendo, tocando piano, flauta e clarinete, ou simplesmente lendo. Devido a isso, Luís Octávio tinha mais uma característica: era uma enciclopédia viva do meio e da cultura ferroviária.

Certa vez, durante um “passeio canino”, o encontrei e conversamos um pouco. Na época eu ainda estava me aprofundando no assunto, e ele me convidou para ir à sua residência. Comentei que eu precisava deixar o cachorro na casa dos donos, mas ele falou que podia ir com cachorro e tudo na casa dele ! Como a família dona do cão é muito amiga minha até hoje, e eu costumava passear o tempo que quisesse, fui com cachorro e tudo na casa do Luís Octávio. Lá me deparei com uma certa bagunça organizada: chão empoeirado, objetos jogados sobre os poucos móveis, dezenas de papéis com anotações e uma considerável quantidade de livros antigos e raros, além de revistas, jornais e informativos da AFPF (Associação Fluminense de Preservação Ferroviária, a qual ele foi fundador e presidente). Li rapidamente alguns livros e mapas que ele me mostrou enquanto ele brincava com o cachorro, parecia que eles se conheciam há muito tempo. Essa foi a primeira de muitas visitas que fiz à sua residência.

Luis Octávio em seu apartamento

Guardo muitas lembranças do Mestre, e muitas histórias engraçadas e curiosas. Uma delas foi durante as obras do Metrô Linha 4, que causou transtornos aos moradores de vários bairros por onde a linha passa em subterrâneo. Cortes de energia, interrupção de serviços de telefonia e TV a cabo, explosões para abertura dos túneis, trepidação durante a passagem do “Tatuzão” (TBM, máquina usada para escavar as galerias) … em uma ocasião não conseguíamos falar com o Luís Octávio por mais de 15 dias. O seu telefone tocava e ninguém atendia, até que eu fui lá e vi durante a noite que uma luz estava acesa. Pensei que ele estivesse em casa, mas interfonei e nada. Decidi voltar no outro dia, preocupado. Fiquei mais nervoso ainda ao ver que a luz estava acesa durante o dia ! Novamente interfonei e ninguém atendeu. Pensei no pior, mas consegui me controlar, não ligando pra bombeiros ou polícia. Decidi pela última vez voltar à noite, e surpresa ! Ele abriu o portão na hora que eu toquei no interfone. Perguntei o que tinha acontecido, e ele disse que estava em Miguel Pereira, tinha acabado de chegar, e que costumava deixar a luz acesa para pensarem que tinha alguém em casa. Além disso, o telefone estava quebrado, as obras do Metrô tinham danificado o cabeamento, por isso ninguém conseguia contato por vários dias. Após esse alívio, telefonei a todos que me ligavam, avisando.

Uma das várias condecorações recebidas, nesta ocasião ao lado de Carlos Assis, diretor e fundador da AFTR

Certa vez, após muitos encontros na rua, o perguntei se ele não tinha algum livro que pudesse me emprestar para ler ou digitalizar na minha casa. Eu já tinha criado o fórum de debates da Associação Ferroviária Trilhos do Rio, onde eu e muitos amigos que conheci pela internet e em outros fóruns de debate pesquisávamos arduamente sobre os mistérios ferroviários do passado e outras informações e notícias atuais. Tive a ideia de digitalizar e publicar na internet livros e mapas antigos, livres de direitos autorais pelo tempo decorrido, e Luís Octávio tinha uma quantidade considerável de publicações. Lembro-me que ele tinha uma bíblia da década de 1940 em latim, se não me engano. Não achei que fosse tão simples um empréstimo, mas ele se prontificou em me disponibilizar o que eu quisesse, mesmo sendo raras publicações. Ele assim contribuiu, mais uma vez, para o engrandecimento do nosso fórum, que ficou conhecido pelo alto nível de debate e pesquisa, com dados e descobertas que até hoje poucos sites na internet tem. Algumas informações e fotos, aliás, só nós temos ou estudamos até hoje. E assim o fórum ultrapassou os seus limites virtuais, começamos a marcar encontros, reuniões e expedições (eu já fazia desde 2009, e depois descobri que tinha outros “doidos” que costumavam fazer tais pesquisas), e com o crescimento e fortalecimento do movimento, formalizamos o grupo em 2014, fundando a ONG AFTR, a qual sou presidente. Luís Octávio esteve na fundação mas foi embora antes do fim (o evento durou mais de 4 horas !), e como sempre muito colaborou para o nosso crescimento.

Uma das ilustres visitas à nossa sede, em Piedade

Outros “causos” do Luís Octávio foram ao mesmo tempo engraçados e tensos. Assim como a ocasião em que ficou incomunicável por vários dias (pra contribuir com isso, ele só foi ter um aparelho “celular” em 2015, mas que perdia toda hora) certa vez ele precisou se internar para uma cirurgia. Algo que causou temor, pois ele já tinha idade de certa forma avançada, mas inquieto como sempre, não ficava parado. Toda a comunidade ferroviarista ficou apreensiva, e no dia da cirurgia nos mantínhamos em contato o tempo todo para saber de notícias. Graças a Deus correu tudo bem, sendo liberada a visita já no outro dia. Enquanto muitos se programavam para visita-lo, algumas pessoas já haviam ido ao hospital e … ele não estava lá! Preocupados com o seu paradeiro, ficamos sabendo que ele havia se cansado de ficar parado no hospital e “se deu alta”, indo pra casa!

Um dos vários protestos pedindo a volta da Estrada de Ferro Mauá

Em outra ocasião ele me contou que estava caminhando sozinho pelo leito extinto da Estrada de Ferro Mauá, sua grande paixão e projeto de vida não realizado infelizmente por motivos alheios. Esse trecho eu andei quatro vezes, sendo marcante a primeira vez, quando percorri sozinho os 14 kms da ferrovia e gravei um vídeo que me deixou de certa forma conhecido, tanto pela aventura quanto pela loucura. Luís Octávio me contou que estava caminhando pelo trecho quando, ao querer examinar um trilho fincado na mata, pisou num atoleiro e começou a afundar. Quanto mais esforço fazia, mais afundava. Até que conseguiu se firmar e sair da lama, sujo até quase a cintura e descalço ! Os dois sapatos ficaram dentro da lama ! E assim ele foi embora pra casa, sujo até a cintura e sem calçados …

Em um evento pela volta do “Trem Barrinha”, Luis Octávio tocou clarinete na praça

Luís Octávio costumava nadar, caminhar e correr na Praia do Leblon, bairro onde morava. Inclusive ele justificava sempre que pessoas de outros estados falavam que “no Rio de Janeiro a preservação ferroviária não funcionava porque tinha praia”, ou seja, com outras maneiras de se divertir e se distrair as pessoas não se interessam pela cultura e história. A resposta irônica dele era essa a quem o argumentava, que sim, o motivo devia ser esse, pois ele mesmo fazia isso todos os dias. E em uma ocasião, Luís Octávio foi me visitar no meu serviço, uma pet-shop no mesmo bairro, sem camisa e de sunga ! Alguém que estava comigo olhou pela vitrine da loja e me perguntou se eu o conhecia. Disse que sim e pedi um minuto, para que eu fosse falar com ele lá fora, antes que ele entrasse na loja, o que seria bem provável. Quando fui falar com ele, ele me disse “Olha aí, o coroa ainda dá um caldo, não é não ?”. Esse dia foi muito engraçado …

Na reinauguração do Museu Ferroviário do Engenho de Dentro (02/04/2013) o Mestre me passando alguns conselhos

Em outra ocasião ele apareceu no meu serviço, já de noite, porque desceu no ponto de ônibus errado, segundo ele. Ele carregava uma caixinha, perguntei o que era: um clarinete. Ele começou a montar e disse que ía tocar, mesmo comigo dizendo que não precisava, pois tinha cliente na loja e eu estava fechando o movimento do dia. A primeira música que ele tocou foi o hino do Flamengo, seu time do coração. Eu falei que aquela música não valia, aí ele disse que se eu torcesse pro Vasco da Gama, iria tocar o hino do Vasco. Eu não costumo acompanhar ou torcer por futebol, aí não disse nada, esperando o hino. Quando ele começou a tocar, todo mundo caiu na gargalhada: era a marcha fúnebre ! Muito figura !

No ano de 2014 organizamos mais uma expedição para descer a Serra da Estrela, por onde a Estrada de ferro Príncipe do Grão-Pará possuía trilhos que davam acesso ferroviário à cidade de Petrópolis. Só que neste dia coincidentemente e fatidicamente estava tendo uma ocupação policial no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e consequentemente uma fuga dos bandidos destas comunidades para outros locais. Petrópolis era um dois locais visados pelos bandidos para se esconderem, e por isso foi deslocado um grande aparato policial para tentar impedir este deslocamento. Nós não sabíamos desta operação no mesmo dia, e seguimos o nosso caminho normalmente. Após desembarcarmos do trem em Saracuruna, pegamos um ônibus para subir a serra em direção a Petrópolis. Luis Octávio estava sentado ao meu lado e, dentre os amigos que fariam a caminhada junto conosco, alguns portavam tripés de câmeras (que poderiam ser confundidos com armas de grande porte), facões e outros instrumentos para auxiliar na descida em algum trecho de mata. Em determinado momento o ônibus parou bruscamente no meio da Serra: era uma blitz policial. Silêncio total dentro do ônibus enquanto os policiais revistavam todos. Silêncio total não: Luis Octávio era o único que falava aos berros, criticando o governador do estado, os prefeitos de diversas cidades, vários políticos, e eu o cutucando pra ficar quieto. Acabou tudo bem, pois os policias identificaram que quase todos no ônibus seguiriam para o mesmo destino e objetivo, fazendo parte do grupo da AF Trilhos do Rio. Mas aquele episódio ficou marcado pela total falta de censura do Luís Octávio, não importava em que ocasião, se dentro de um ônibus, no Centro de Controle de tráfego de trens ou se na Assembleia Legislativa (como chegou a ocorrer, ele interrompendo a sessão aos berros), se ele queria falar falava mesmo, não tinha restrição e problema algum nisso, apenas certo controle.

Foto de todos do grupo participante da expedição na Serra da Estrela, antes de subirmos a mesma

A primeira ferrovia do Brasil foi inaugurada em 1854 e desativada parcialmente em 1962 e em 1982, restando em tráfego apenas o trecho entre Piabetá e Vila Inhomirim. Por várias décadas, Luís Octávio e Associações por onde passou e liderou, lutaram pela reativação desta que é o marco do progresso do país, criminosamente renegada pelas autoridades governamentais. Todo ano havia celebrações no dia 30 de abril, data que marca a sua inauguração, mas nada de concreto era realizado, apesar das diversas tentativas, projetos e negociações. Luís Octávio estava presente em todos os eventos. E lutava pessoalmente também pela preservação da estação Guia de Pacobaíba, a primeira do Brasil. Em 06 de abril de 2012 foi transmitido pela TV Globo o programa Globo Repórter, com o tema “Ferrovias” (clique para visualizar no Youtube no trecho onde inicia a matéria citada). Evidentemente, Luís Octávio teria que estar neste programa especial, e em rede nacional, na estação e ferrovia que ele tanto lutou pra preservar e reativar, deu o emocionado depoimento às câmeras:

“Ainda digo mais: se um dia essa Estrada de Ferro reativar, eu não faço mais questão de viver.”

O repórter pergunta o motivo, e ele completa:

“Cumpri meu objetivo. Meu sonho é ver essa linha funcionar …”

Neste palco tão querido por ele, também ocorreram episódios curiosos: certa vez houve um aumento descontrolado da população de formigas que começaram a fazer ninhos no prédio da estação, ameaçando a sua estrutura. Várias pessoas e instituições pediram socorro aos responsáveis pela manutenção da estação, mas por burocracia as medidas não eram tomadas, demoraram muito. Eis que Luís Octávio surge com a solução: comprou três pacotes de formicida e usou nos ninhos, resolvendo parcialmente o problema. Mas teve um efeito colateral, que ele me contou depois: ficou com a boca dormente por três dias, pois como não conseguia abrir os pacotes de veneno com as mãos, mordeu e abriu com os dentes !

Uma das reuniões do Fórum de Preservação Ferroviária no IPHAN

Por algum tempo foram organizadas reuniões visando a troca de informações e busca por soluções no meio ferroviário e de preservação, em um órgão federal teoricamente responsável por manter o patrimônio em todo o país (IPHAN). Vendo a morosidade e burocracia dos órgãos envolvidos, por algumas vezes Luís Octávio perdeu a paciência, seja por querer a palavra e não conseguir, seja por ver que todos falavam muito mas nada de concreto faziam. Uma das frases mais ditas por ele nestas ocasiões, e que tornou-se marcante:

“Ok, ok. Tudo certo, nada resolvido”.

Ele se referia à incapacidade de essas entidades realizarem alguma coisa de prática no assunto. Estas são só amostras do repertório de frases imortalizadas por ele.

Quando formalizamos a AF Trilhos do Rio e organizamos a nossa sede em Piedade, fizemos questão de criar um prêmio, uma espécie de honra ao mérito e causa ferroviária, e obviamente o primeiro escolhido foi o Luís Octávio. Infelizmente precisamos adiar a celebração que estava marcada para o fim de 2015 (eu necessitei passar por uma cirurgia), mas em 30 de junho de 2016 a realizamos. Luís Octávio fez questão de oferecer a premiação a todos os fundadores e representantes da AFPF (Associação Fluminense de Preservação Ferroviária, associação fundada por ele em 30 de abril de 1999), em uma prova de humildade, consciência e consideração com todos que junto com ele empreenderam esta luta árdua e por vezes ingrata pela preservação histórico-ferroviária do estado do Rio de Janeiro. Foi uma tarde muito feliz, a mais bela de todas na nossa sede, realmente inesquecível.

O evento de celebração e condecoração ao Luis Octávio na sede da AFTR

Foi mais ou menos após este período que notamos Luís Octávio desanimado. Ainda lutador e disposto, mas parecia triste. Realmente não era pra menos, quanto mais ele lutava, mais as coisas não seguiam adiante, sempre por motivos alheios e nunca por falta de luta e determinação dele. Uma das suas frustrações foi ter uma vez o acesso negado à cabine de sinalização de Saracuruna, a mais antiga preservada no país. Por falta de comunicação e outros documentos, não pudemos acessar o local, onde pretendíamos junto com outras instituições restaurar e revitalizar o espaço. Entretanto nem com esse revés Luís Octávio perdia o seu bom humor: enquanto esperávamos o próximo trem para irmos embora, começou a chover forte. Sugeri que fôssemos para a plataforma, e entrássemos no trem, mesmo que ele não fosse sair naquela hora. E assim fizemos. Passados alguns minutos, Luís Octávio levanta e diz que precisava ir ao banheiro. Comentei com ele que ficava longe e poderia perder o trem. Chovia tanto que havia poças dentro da composição. Ele simplesmente nos disse “vou fazer na plataforma mesmo” e assim foi. Ficamos espantadíssimos com a sua desenvoltura nessas situações: simplesmente caminhou até uma pilastra (de um palmo de largura !) e começou a urinar ali mesmo. Nós só víamos o esguicho. Até que no outro carro do trem, uma mulher que estava com algumas crianças gritou “Minha nossa, o senhorzinho está urinando na plataforma !”. Não aguentamos e caímos na gargalhada, ainda assustados com a situação. Luís Octávio ainda ficou coletando água da chuva para beber e depois ainda nos disse, com a maior naturalidade “Me aliviei e olha, ainda lavei as mãos !”.

Luis Octávio e o Ferreocar, produzido pelos técnicos da AFTR & Ferreotec

No domingo, dia 09 de abril de 2017, estivemos em Miguel Pereira para uma visita técnica no trecho preservado pela AFPF, hoje mantido por outra instituição que implantou um Trem Turístico, e no trecho atualmente operado pela AFPF, após a estação de Miguel Pereira ajudamos no que pudemos, retirando terra que soterravam os trilhos, pedindo para motoristas tirarem os carros estacionados sobre a linha, e prestigiando o trabalho. Ninguém sabia, mas essa seria a última viagem de Luís Octávio ao local. Na volta, lembro bem que fizemos um lanche, ele comeu um folheado e um copão de leite. Descemos a serra lado a lado no ônibus.

A última viagem de Luis Octávio no trenzinho da AFPF, em Miguel Pereira

Como agradeço por aqueles momentos, eu fui filmando as inúmeras curvas da rodovia para a produção de um vídeo, mas mudei de intenção e pensei em uma homenagem ao Mestre usando estas imagens. Chegando em Japeri ele nos contou que em um estabelecimento local vendiam um Açaí incrível e barato. Fomos até este local, mas chegando lá, não tinha o tal açaí, apenas sorvete. Luís Octávio comprou um em uma embalagem redonda, estilo de margarina. Nesse meio tempo estávamos preocupados com o horário do trem, e assim que conseguimos consultar os horários pela internet, demos um pulo: o próximo trem saía em 12 minutos. Falamos com o Luís Octávio, que estava sentado em um banco (na verdade e coincidentemente, um dormente ferroviário), e saímos em disparada. Notamos uma respiração ofegante dele, paramos e perguntamos, mas ele disse que estava tudo bem. Subimos a rampa da passarela que dá acesso a estação e olhamos pra trás … cadê o Luís Octávio ? Voltamos e nos deparamos com uma cena daquelas: ele estava urinando num cantinho, dentro do pote de sorvete. Olhei para o outro membro da AFTR e exclamei “não acredito nisso, vamos esperar mais à frente”, e nisso havia gente descendo, podendo se deparar com a cena como nós nos deparamos. Mas felizmente não houve escândalos, e logo veio o Luís Octávio. Entretanto nada comentamos sobre a cena. Subimos a passarela e conseguimos embarcar a tempo. Dentro do trem, ele nos fala:

“Desculpe, quase nos atrasei. Mas é que eu estava apertado, aí como não podia fazer xixi na rua, fiz dentro do potinho de sorvete e joguei na lixeira. Assim ninguém pode me multar ! Dito isso, só nos resta o suicídio.”

Ao chegar a estação de Austin, o membro da AFTR se despediu de nós e eu disse rindo, após ele apertar a mão do Luís Octávio, que ele não havia lavado as mãos dessa vez. E aí o Luís Octávio sentou-se ao meu lado e conversamos muito. Ele me perguntou se eu conhecia uma loja no subsolo da estação Central do Brasil, que vendia um trenzinho de brinquedo, que poderia ser oferecido como brinde aos associados da AFTR. Eu não conhecia, mas prometi passar lá quando pudesse, pois nesse dia eu iria direto de ônibus para casa, estava tarde. Juntos pegamos o mesmo ônibus e assim cada um foi para suas residências. Dois dias depois, ele apareceu no meu serviço (como eu disse antes ele sempre fazia isso, seja para me trazer alguma matéria sobre ferrovias, sobre cães, ou um mapa que ele enviou via Correios, mas que levou dezesseis dias para chegar a mim, e moramos no mesmo bairro !) e surpresa: me trouxe o trenzinho que falou. Me entregou, para oferecer como brinde aos associados. Pra mim, aquilo foi um presente. Sem ele ver, fiz duas fotos, as suas últimas em vida provavelmente. Ele estava bem, conversamos um bocado, ele montou o trem em cima do balcão da loja, agradeci e depois ele se despediu normalmente. Foi a última visita dele … uma verdadeira despedida.

A última foto de Luis Octávio, dois dias antes de falecer, feita por mim durante visita ao meu serviço

Dois dias depois vi a mensagem no celular. Não acreditei, e ainda questionei, pensando que o dono do celular que enviou a mensagem tivesse sido roubado ou que o telefone tivesse sido clonado. Mas não, infelizmente era verdade, esse dia chovia muito na hora, e acredito que todos os ferroviários já falecidos estavam tristes nos Céus por essa perda incalculável. Ao mesmo tempo, Luís Octávio deve ter sido muito bem recebido pelo Barão de Mauá (Irineuzinho, como o chamava), Ottoni, Paulo de Frontin e demais gigantes das ferrovias. Não conseguiu o que disse alguns dias atrás em Miguel Pereira, infelizmente:

“Quando eu partir e chegar no Céu, São Pedro no seu computador, porque lá também deve estar tudo evoluído e conectado sem fio, vai procurar o meu nome e me perguntar se cumpri minha missão. Vou pedir pra voltar pro mundo e justificar: não consegui cumprir minha missão porque os CAGALHÕES não deixaram !”

O mundo dos trilhos perdeu um gigante, um mito, o Mestre. Neste dia ele embarcou em uma ferrovia, nos deixando em outra. Ele na Estrada de Ferro Eternidade, e nós na Estrada de Ferro Saudade.

Deixo em sua homenagem e em primeira mão o último vídeo que se tem notícia, gravei no ônibus quando estávamos voltando pra casa na sua última viagem. Eu simplesmente liguei o celular (que não tinha câmera frontal) e comecei a gravar ele conversando comigo, sem ele saber nem poder ver que estava sendo gravado. Imagens inéditas, infelizmente com o áudio parcialmente ofuscado pelos ruídos do ônibus em alta velocidade no Túnel Rebouças.

Hoje (2020) fazem três anos do seu embarque, onde hoje aprecia a nova paisagem pela janela do trem, e nos incentiva a continuar na luta pela causa ferroviária. Somos muito gratos por tudo, Mestre.

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