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Minha querida estatal

Tempo de leitura: 6 minutos

Aproveitando as férias de final de ano publicamos esse artigo para nós inédito, mas já antigo e disponível na Internet desde 2016.

Trata-se de uma matéria do Jornalista Leandro Narloch, que pela temática e didática apresentada corrobora com tudo o que temos dito sobre a RFFSA ao longo do ano.

Ótimo Ano Novo para todos e voltaremos no próximo ano com textos inéditos.

Minha querida estatal – E como os pobres subsidiavam meus passeios de trem
Leandro Narloch*

É fácil entender a rejeição à venda das estatais

Acervo Benício Guimarães AFTR/AENFER

Cem pessoas sentam-se em um círculo, cada uma com seu bolso cheio de centavos. Um político caminha por fora do círculo, pegando um centavo de cada pessoa. Ninguém se importa; quem se importa com um centavo? Quando o político completa toda a volta em torno do círculo, joga 50 centavos para uma pessoa, que se sente cheia de alegria com a sorte inesperada. O processo é repetido. Um centavo é novamente recolhido de cada uma das 100 pessoas e, ao final, 50 centavos são entregues para outra pessoa. E assim vai, até que cada uma das cem pessoas tenha recebido 50 centavos.

:: Após cem voltas, cada indivíduo está 100 centavos mais pobre e 50 centavos mais rico. E todos estão felizes ::

Essa história acima foi criada por David Friedman, e explica não apenas por que os brasileiros gostam de programas governamentais, como também por que eles torcem o nariz para privatizações. Se alguém perguntasse aos participantes do jogo se eles defenderiam o fim do sorteio dos 50 centavos, muitos diriam que não, claro que não. Seria injusto acabar com o jogo que deixa tanta gente feliz e que “enriquece” cada uma em 50 centavos (os 100 centavos perdidos paulatinamente não são notados; enquanto os 50 centavos ganhos de uma só vez são perfeitamente percebidos).

Acervo Benício Guimarães AENFER / AFTR

As universidades públicas, por exemplo, representam os ganhos de 50 centavos. Quem entra em uma universidade pública ganhou os 50 centavos do exemplo acima. O curso de um aluno na Unicamp pode custar 79 anos de impostos de um trabalhador que ganha salário-mínimo. Mas ninguém vê esse custo, ele é disperso entre todos, enquanto a universidade gratuita é concreta, grandiosa e sem mensalidade. É claro que, se um jornal sugerir a venda das universidades, como fez O Globo há algum tempo, as pessoas reagirão com histeria.

Acervo Benício Guimarães AENFER / AFTR

Uma enquete do Instituto Paraná Pesquisas mostrou que 61% dos brasileiros não querem que o governo privatize os Correios, os bancos públicos ou a Petrobras. Estatais (e o serviço público em geral) têm benefícios concentrados e aparentes, enquanto os custos são ocultos e dispersos entre os cidadãos. Você não sente pagar, mas sabe muito bem quando está recebendo alguma coisa que parece de graça. Por que ser a favor de empresas privadas se elas raramente dão coisas gratuitamente?

Trens e aviões

Uma recente reportagem do Jornal do Commercio afirmou que a malha de trens de passageiros no Nordeste sofreu desmonte depois que as ferrovias foram privatizadas. Eu tive uma impressão parecida quando a RFFSA foi privatizada no Paraná. Na época da “Rede” estatal, pagávamos uma ninharia para descer a Serra de trem até Paranaguá; depois da venda, o preço explodiu. Maldita privatização!

Acervo Benício Guimarães AENFER/AFTR

A mesma reação, tiveram os espanhóis diante da privatização da Ibéria, a empresa de aviação. “Quando era estatal, era uma delícia”, me contou uma amiga espanhola tempos atrás. “Custava pouco e tinha espumante liberado pra todo mundo.” Depois da privatização, fim da mordomia.

O que eu, os universitários, minha amiga espanhola e os passageiros de trens do Nordeste não percebíamos é o custo do serviço público. Todos pagávamos para manter linhas de trem deficitárias, obras superfaturadas, universidades em greve e trens e aviões sucateados. Mas esse custo chegava em forma de impostos, dívida pública e inflação, que afetavam majoritariamente os mais pobres, enquanto os mais ricos ainda auferiam alguns benefícios.  

Pátio da estação Marítima em 1993
Acervo Benício Guimarães AENFER / AFTR

E, ironicamente, é exatamente em nome dos mais pobres que muitos defendem a existência de estatais.

Os serviços “grátis” criaram a hiperinflação dos anos 1980 e tornaram nossos pais incapazes de pagar a faculdade dos filhos, mas era difícil relacionar a ferrovia estatal ou a universidade pública à crise do país. A privatização ajudou a diminuir o rombo das contas públicas e, com isso, ajudou no fim da hiperinflação. Mas tornou aparentes custos que antes eram invisíveis, enquanto a carga tributária só aumentou.

Túnel em Vargem Alta (1992)
Acervo Benício Guimarães AENFER / AFTR

Não é à toa que tantos brasileiros ainda hoje rejeitam vender as estatais.

*Publicado originalmente na revista Veja em 28 julho de 2016 e no Instituto Mises Brasil em 19 de julho de 2018

 

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Agradecemos a leitura. Até a próxima !

(A opinião constante deste artigo é de inteira responsabilidade do autor, não sendo, necessariamente ou totalmente, a posição e opinião da Associação)

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