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Transporte sobre trilhos: motivos pra lutar (1)

Por Carlos A.Ramos ('Melekh')

Aqui narro os motivos que estimularam o meu envolvimento em prol do retorno das Ferrovias, ferrovias estas que impulsionaram este Brasil afora, em particular no desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro, cobrindo praticamente quase todo seu território.

Meu primeiro contato com a ferrovia e os trens se deu quando ainda era criança, pois o bairro em que eu vivia era atendido pela Estação Cintra Vidal, que teve nome mudado para Pilares, já na concessão para Supervia.

Lembro-me da Estação Cintra Vidal na época em que existia a passagem de nível, mas após um atropelamento esta foi fechada sendo para isso construído uma passarela. Posteriormente aumentaram o tamanho da plataforma, já que ali fazia parada do Japerí quando este seguia pela Linha Auxiliar, visando também o futuro, fizeram uma nova estação, derrubando a anterior.

Eu brincava próximo da linha do trem e utilizava a mesma para moer vidro para cerol, que era empregado na linha de pipa... ali eu via ali passar diversos tipos de trens, Cargueiros, de Passageiros, Autos de Linha e etc.

No local havia três linhas, com uma quarta linha em Terra Nova, todas eram eletrificadas; todas eram utilizadas tanto por Cargueiros; quanto por trens de Passageiros.

Os trens cargueiros transportavam diversos de carga, tanques de guerra, automóveis, cimento, minério, rolos de fios, Açúcar Pérola (lembro que um cargueiro de açúcar parou no sinal e o pessoal pegou vários pacotes de açúcar), alem de outros tipos de carga.

Eu muitas vezes pegava o papel laminado que tinha nas embalagens de cigarro, para acionar o Sinal da Passagem de Nível... o pessoal e os carros ficavam aguardando o trem que nunca vinha... coisas de adolescente...

Quanto aos trens de Passageiros, alem do Belford Roxo azul de três portas, passava periodicamente o Japeri de cor prata, que sempre tinha prioridade de linha.

Também passava a Litorina que era usada em Mangaratiba, o Trem de Itaguaí, e diversos tipos que usavam a Linha Auxiliar como passagem. Não posso me esquecer do Vera Cruz e do Santa Cruz – MG e SP.

Cito também os trens que me lembro ter embarcado nos mais diversos ramais, ora sozinho, ora na companhia de colegas, juntos íamos para a Estação Cintra Vidal e saiamos procurando outros trens para passear, sempre íamos até o final de um determinado Ramal, onde às vezes, existiam um outro trem que de lá seguia adiante, por exemplo... de Santa Cruz embarcávamos para Itaguaí.

Coloco também alguns trens que viajei: São Matheus x Costa Barros; Barrinha, Trem de Mangaratiba, Trem de Itaguaí, Guapimirim e Raiz da Serra (Vila Inhomirim) quando ainda saia de Gramacho, Trem de Visconde de Itaboraí, Trem para o Espírito Santo, Trem Paulista, Trem Mineiro, me lembro também que peguei os trens da EFRD já como EFCB, saindo de Belford Roxo, mas com pessoas adultas.

O Japeri era 33; o Santa Cruz era 42; Paracambí era 54; Belford Roxo era o 52; Francisco Sá era 60; Deodoro era 13.

Andei em outros trens posteriormente...

Agora narrarei o principal motivo que mexeu com o meu intimo e fez com que me movimentasse no sentido de lutar, buscar soluções para fazer retornar o transporte de trilhos..., as ferrovias.

Peço a vossa atenção nesta minha narrativa.

No ano de 2002 em data que não me recordo, aproximadamente às 22 horas, eu me encontrava na região do Centro da Capital do RJ (Av. Presidente Vargas) onde aguardaria o ônibus no qual me deslocaria para minha residência.

As ruas já estavam ficando desertas... me encaminhei para o ponto do ônibus... no ponto estava um senhor de uns 55 anos aproximados, presumo...

Como somente tinha eu e esse senhor, “puxei conversa”... perguntei se havia passado o ônibus que eu embarcaria... ele disse que sim... logo eu sabia que o próximo iria demorar.

Vi que ele não se atentava para os ônibus que passavam, perguntei qual ele estava esperando e ele me disse que não iria para casa... indaguei o motivo... ele me respondeu que morava em Humberto Antunes, no município de Mendes, Sul Fluminense... eis a seguir o relato desse senhor:

“No Município onde eu moro, os empregos pagam um pouco mais que salário mínimo e ainda assim, são escassos... isso me obriga a vir no Rio de Janeiro em busca de algo dentro de meu oficio; sou Torneiro Mecânico e Bombeiro Hidráulico.”

As vagas no ano de 2002, aqui no Rio de Janeiro eram bem concorridas, mas não se compara com o alto índice de Desemprego atual; porem no caso deste senhor, pesava a Distancia e o Alto Valor da Passagem e naquela época os Vales Transportes eram de papel e não davam direito a uma segunda viagem sem cobrança.

Nos Classificados eram anunciados empregos dentro das suas atribuições, porem quando o mesmo se apresentava para a vaga, o empregador ao saber o local onde ele residia, protelava e dizia para que ele aguardasse contato posterior, contato que nunca ocorria.

Assim foi por varias vezes, até que em derradeiro desespero, o mesmo pediu a um amigo ou parente (não recordo) que morava no Catumbi que este lhe “emprestasse” uma conta de luz como comprovante de residência.

Assim ele conseguiu uma tão almejada vaga de trabalho, no entanto o Vale Transporte concedido, era de acordo com o valor das passagens do município do Rio de Janeiro com direito a uma viagem de ida e volta.

Claro que esse Valor de Passagem logicamente não lhe era permitido ir diariamente para sua residência em Mendes e voltar no dia seguinte, pois seriam mais de um meio de transporte com valores bem acima do recebido.

Conforme ele me narrou, a solução encontrada era ficar em um hotel popular patrocinado pelo governo do Estado cuja diária custava R$ 1:00, dando direito a roupa de cama e banho, sabonete, pasta e escova de dente e café da manhã oferecido - pão com manteiga, biscoitos e suco de frutas.

A intenção do hotel era atender a população de baixa renda que passava a noite ao relento, principalmente no centro, por não ter dinheiro para pagar a passagem de volta para casa.

Porem como existiam outras pessoas na mesma situação, nem sempre este senhor conseguia ficar no hotel (pois os quartos já estavam ocupados), assim ele tinha que dormir na rua.

Ele contou que comia o pão que guardava do almoço no Restaurante Popular Betinho, que tinha refeições também a R$ 1:00, o restaurante era vizinho ao hotel, instalado na Central do Brasil; tanto o hotel e o restaurante foram implantados na época do Governo Garotinho.

O que mais me comoveu foi saber que ele tinha mulher e uma filha pequena, que só podia ver as quartas e/ou no final de semana, pois os vales, cujo valor tinha que ser juntado para poder pagar seu deslocamento.

Falamos sobre outros assuntos... quando veio o ônibus que eu pegaria... embarquei e nunca mais o encontrei.

Na hora não assimilei os fatos, mas passado o tempo, cai na real e isso ficou “martelando” nos meus pensamentos.

Posteriormente pesquisando por antigos trens que passavam por Inhaúma, cito antes do metrô, descobri o Fórum TGVBR.

No começo só acessava o mesmo para ler e pesquisar, depois me cadastrei e passei a participar do mesmo com alguns materiais que possuía.

Soube que em Inhaúma os trens eram atendidos pela EFRD, tinha mapas antigos que mostravam isso e foi quando soube que o trem dessa ferrovia vinha do Caju e passava pela Av. Dom Helder Câmara (Av. Suburbana).

E foi na mesma via onde ficava a antiga Fabrica Souza Cruz, esta fechou as portas e ter parte de seu muro derrubado, ficando assim exposto uns metros de trilhos, trilhos pertencentes à EFRD...

Na época eu conhecia o Edson (Tibúrcio) Vander (pois fui apresentado ao mesmo pelo o saudoso Luiz Octavio, presidente e fundador da AFPF), falei para o Edson sobre os trilhos e ele repassou a informação ao Dado, que tratou de ir com o Julio ao local e fotografou em primeira mão esse achado.

Passado algum tempo, acabei conhecendo o Dado e outros companheiros, graças as Expedições promovidas pelo TGVBR... aí nasceu as primeiras conversas embrionárias de buscar uma solução para a questão das ferrovias e logística sobre a mesma.

Cito aqui alguns companheiros percussores de mesmo pensamento:
Dado, Luiz Eduardo, Bruno Senna, Vinicius, Leonardo Ivo, Carlos Alberto Souza entre outros, perdoe-me os que omiti. Recentemente conheci pessoalmente o Alan de Barros em uma micro-expedição no Ramal da Penha.

Eu conversava com o Dado de que o caminho pudesse ser uma ONG; caminho esse que pudesse viabilizar as nossas idéias e ideais.

Num primeiro momento, surgiu o Fórum Trilhos do Rio, diante a inviabilidade do TGVBR que ficou algum tempo sem operar.

E o Fórum Trilhos do Rio foi a referencia para as futuras expedições, fontes de pesquisas, integração com outros sites e até associações como AFPF, ABPF e demais.

A idéia amadureceu... até que um dia foi fundada a ONG Trilhos do Rio, referencia em assuntos ferroviários, sendo hoje em dia é uma das maiores agregadoras de material, sendo requisitada por diversos setores da sociedade, para diversos assuntos no que tange as ferrovias.

Tive a minha participação em parte desse processo, no qual tenho muito orgulho, pois pude conhecer diversos companheiros, fazer amigos e o melhor, ver pessoas honestas, cada qual com sua profissão e particularidade, conhecimento, mas todos iguais em objetivo e simplicidade. Podemos dizer que se trata de uma grande família, cujo contato proporciona um intenso prazer e bem estar.

Nunca mais via aquele senhor de 17 anos atrás, mais sei que a semente foi plantada e que apesar da desesperança neste sistema perverso de Governos e Governança, chegará o dia em nossos objetivos serão alcançados, termos um sistema de logística satisfatório que devolverá a Vida Social de muitos que se deslocam de suas cidades, seja para trabalho; seja para outros fins e situações como a que eu presenciei e aqui narrei, não mais acontecerão.

Que D’us nos abençoe e abrace esta causa.

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