A sede da AFTR em Piedade

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Eduardo (‘Dado’)

Durante a assembleia de fundação da Associação Ferroviária Trilhos do Rio – AFTR debatemos, dentre muitos outros assuntos além do próprio estatuto a ser aprovado, sobre onde poderíamos ter um local para nossas reuniões e debates presenciais. Algumas opções eram disponíveis, mas nenhuma delas nos atendia plenamente no sentido de ser algo particular, um local para administrarmos e nos reunirmos a qualquer dia e hora, além de ser uma oportunidade de visitantes conhecerem o nosso trabalho, e ser um ponto de encontro e de atrações à coletividade. Coincidentemente alguns dias antes da Assembleia Geral de fundação, o nosso secretário-geral Carlos Assis apresentou uma possível solução: por acaso encontrou na rua a esposa de um dos antigos diretores da instituição Tattwa Potira Catu, uma instituição religiosa localizada no bairro de Piedade. Assis tinha exercido várias funções nessa instituição principalmente na parte de astronomia, o prédio possuia um amplo espaço equipado com lunetas e telescópio além de vários outros equipamentos técnicos. E como a instituição estava praticamente sem funcionar, os antigos diretores estavam sem saber o que fazer para não perder o prédio, fechado há bastante tempo. Então foi sugerido que nós ocupássemos o local, em regime de comodato, para preservar o espaço e evitar a sua venda ou mesmo uma possível invasão. Assim os trâmites foram sendo realizados, tudo foi acertado e começamos a trabalhar.

Fachada do prédio, em 2015

Rapidamente organizamos um mutirão de limpeza e organização no espaço: o primeiro pavimento (térreo) possui um grande salão onde eram realizados eventos e atividades religiosas, dois banheiros, uma sala administrativa, um quintal nos fundos com uma pequena residência de zelador, além de um hall de acesso com quadros de avisos, bebedouro e um pequeno depósito sob a escada de acesso à biblioteca. No segundo pavimento existiam duas estantes com milhares de livros religiosos e espiritualistas, e na parte de trás uma sala do sacerdote convertida em oficina posteriormente. Nos fundos desse pavimento mais duas salas técnicas, também convertidas em oficinas e espaço para restauração de peças de museu. No terceiro pavimento ficava uma grande sala aberta com cadeiras para cursos e palestras; uma outra sala menor de uso semelhante, mas fechada; o acesso ao terraço e a sala da cúpula do telescópio. No terraço se localizava a cúpula que quando aberta permitia a observação dos astros através de um considerável telescópio e algumas lunetas.

 

Tínhamos espaço de sobra e suficiente para ministrar cursos e palestras, receber visitantes, restaurar peças históricas, abrigar um museu, biblioteca, mapoteca, um espaço para games e simuladores ferroviários, manter uma sala de estudos e pesquisa, abrigar uma maquete ferroviária, muitas e muitas utilidades, podendo proporcionar várias atrações e contribuindo culturalmente ao proporcionar e disseminar informação, conhecimento, experiências e atividades à população da região de forma gratuita.

Em uma manhã de junho de 2017, os preparativos para mais uma atividade

Uma das primeiras medidas a serem tomadas após ocuparmos, limparmos e arrumarmos o espaço foi receber a doação de uma maquete ferroviária de um dos nosso diretores e fundadores, o Edson Vander. Linda, com toda a ambientação, casinhas, estações, trilhos, faltando apenas reparar a parte elétrica, tarefa que o nosso querido e saudoso Luis Octávio executou juntamente com Carlos Assis. Infelizmente durante o transporte algumas peças voaram (!) no trajeto até a sede, mas nada que tirasse a sua beleza. Com todo o cuidado ela foi transportada para as oficinas do andar superior, onde foi iniciada a restauração.

 

Com o passar do tempo outras medidas e ajustes foram sendo realizados, para organizar e ocupar o espaço. Já tínhamos à disposição:

  • mesas;
  • expositores;
  • livros e revistas doadas por colaboradores, diretores e associados
  • peças históricas
  • miniaturas de trens
  • várias peças e objetos que ajudaram compondo o acervo da instituição.

Normalmente as reuniões e encontros eram realizados aos sábados de tarde, mas também ocorreram raros encontros e visitas em domingos e excepcionalmente em dias de semana. Além de conversarmos e planejarmos atividades e ações de preservação históricas e ferroviárias, ajudávamos a manter e arrumar o espaço. Em 2016 recebemos por comodato material da Associação dos Engenheiros Ferroviários – AENFER, que estava guardado sem espaço nem previsão para exposição. Assis junto com alguns colaboradores restauraram todas as peças, as deixando praticamente como novas e colocando em exposição no espaço da sede em seguida.

Entre 2015 e 2016 surgiu uma boa e original ideia: Carlos Assis e seu amigo de longa data e também engenheiro, Celso Sakae, planejaram e construiram um veículo ferroviário dentro da sede ! Batizado como Ferreocar, o veículo usava energia elétrica a partir de baterias e pesava poucos quilos, o suficiente para ser transportado por poucas pessoas, de duas a no máximo quatro, sendo desse modo bastante versátil e com a possibilidade de ser utilizado para variados fins em ferrovias. Concomitantemente a essa ideia exclusiva, começamos a planejar um evento a ser realizado na sede que premiasse personalidades e pessoas que lutavam pelos trilhos, seja na preservação seja nas ações práticas. O primeiro premiado escolhido foi obviamente Luis Octávio da Silva Oliveira, fundador e presidente da nossa co-irmã Associação Fluminense de Preservação Ferroviária – AFPF. A festividade seria realizada em 2015, mas devido a uma cirurgia sofrida pelo presidente da AFTR decidimos adiar e a mesma foi realizada em junho de 2016. Foi um evento inesquecível onde registramos a presença de grande quantidade de membros, associados, diretores, visitantes e seus familiares, que tiveram a oportunidade de conhecer o espaço, confraternizarmos como uma família dos trilhos e passar momentos especiais naquela tarde única.

 

Posteriormente, entretanto, as visitas e reuniões passaram a ser mais esporádicas. Algumas pessoas tinham compromissos e outras pessoas não compareciam, por motivos diversos. Novos visitantes não apareciam, mesmo com convites e divulgação. Começamos a realizar sessões de filmes com temática ferroviária, com o uso de um projetor que transformava o salão em uma sala de cinema. A pipoca era de graça ! E apesar de algumas pessoas comparecerem às sessões, ainda não era o que esperávamos e poderia ser.

Passando o tempo as visitas foram ficando cada vez mais escassas. Sem a presença física o espaço foi perdendo a razão de existir. Um grande espaço que poderia ser aproveitado e mantido foi ficando sem sentido. Até que decidimos fechar mantendo o local apenas para recebimento de correspondências, realização de poucas reuniões e como oficina para manutenção e aperfeiçoamento do Ferreocar.

Após um período decidimos dar uma nova chance ao espaço, reorganizando todo o espaço… mas depois de algumas tentativas e iniciativas e poucos meses depois a questão presencial se fez presente (desculpe o trocadilho) mais uma vez e fechamos em definitivo. O acervo felizmente teve um destino pertinente e merecido: foi encaminhado à prefeitura de Miguel Pereira, onde no início de 2020 foram inaugurados dois Memoriais Ferroviários com as peças que compunham e ornamentavam a nossa sede, incluindo o Ferreocar, que encontra-se pronto e disponível para circular pelos trilhos do município. Em breve uma matéria especial sobre esse veículo, aguardem !

 

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